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ARTIGO – É tempo de franciscar os líderes brasileiros

Os últimos três meses no Brasil foram marcados por grandes demonstrações que levaram milhões de brasileiros às ruas, destacando-se a Jornada Mundial da Juventude e os protestos “multibandeiras”. Como pesquisador na área de liderança, considero esses um importante laboratório para observar e tirar conclusões sobre a dinâmica do brasileiro na relação líder-seguidor, já que no primeiro exemplo havia um líder claro e no segundo a ausência de liderança.

É de conhecimento geral que o líder é designado pelos seus seguidores e este tem a habilidade de mobilizar pessoas em uma determinada direção para atingir um resultado esperado. Aprecio bastante a abordagem de Kouzes e Posner, autores do livro O Desafio da Liderança, em que dizem ser possível o líder engajar os seguidores em uma determinada direção, se ele conseguir efetivamente esclarecer os valores, em conjunto com o grupo e, mais importante, viver esses valores. Avaliemos, portanto, tal dinâmica em cada um dos casos e sua influência sobre a população brasileira.

Primeiramente, o Papa Francisco veio ao Brasil sob o objetivo claro de reforçar a preocupação da Igreja com a prática da fé e do altruísmo, entre outros comportamentos. Ele reforçou tais valores através de listas, em geral de três valores ao longo de cada um de seus principais discursos no país, como, por exemplo, “esperança, alegria e deixar se surpreender por Deus”. Todos tivemos a oportunidade de ver sua consistência em “viver os valores”, utilizando carros mais populares em seus trajetos, hospedando-se sem nenhuma regalia e usando roupas simples.

Em contrapartida, tivemos a oportunidade de ver outro líder, no caso a presidenta Dilma Roussef, também tentando mobilizar a população com outro objetivo – encerrar a onda de protestos. Em seu primeiro discurso, Dilma também reforçou valores, como sua atenção aos serviços públicos, reforma política e combate à corrupção, em suas palavras. O resultado foi o efeito contrário ao que ela desejava, justamente levando grupos ainda maiores às ruas.

Como observado nas redes sociais, um dos principais pontos negativos e questionamentos foi justamente falar de “combate à corrupção” em meio a protelamentos da prisão já decretada a sua base política pelo “mensalão”, bem como o fato de não ter apresentado nada novo para mobilidade urbana, já sendo isso considerado em seus PACs. Até mesmo no discurso, ela expôs que precisamos ter “respeito, carinho e alegria” com os nossos visitantes, mas como dizer isso se apoiando em linguagem não verbal sisuda?

Tal desalinhamento entre o que é falado e o que é praticado não é um privilégio da presidenta. Pelo contato que tenho ao atuar em programas de desenvolvimento de líderes em empresas em todo o Brasil, tenho convicção de que a maior parte da liderança das organizações, de alto escalão ou nível operacional, não sabe nem mesmo quais são os valores de suas organizações. Dessa forma, como poderão esclarecê-los ou vivê-los?

É como o guru Ken Blanchard nos brinda em seu livro Liderança de Alto Nível: “Valores precisam ser consistentemente aplicados, ou eles não passam de boas intenções. Eles precisam ressonar com os valores pessoais dos membros da organização para que as pessoas possam verdadeiramente escolher vivê-los”. Em um país que deputado na prisão permanece com seu mandato no Congresso Nacional sustentado pelo voto secreto de nossos líderes, ainda temos um caminho longo, como se engatinhássemos de Roma ao Rio de Janeiro, mas temos, sim, a oportunidade para mudar.

E neste norte da oportunidade para a mudança, durante o CONARH 2013, tivemos a honra de ouvir diretamente de Pedro Parente e Andrea Marquez, respectivamente CEO e vice-presidente de Gente & Gestão da Bunge, como é grande o desafio de transmitir apenas um valor (não dois ou três) para que todos os 23 mil colaboradores da organização o sigam. Segundo eles, realmente é uma grande dificuldade, porém já conquistaram grandes avanços. Caso consigam que apenas esse único valor seja praticado pelo time já terão superado boa parte de seu desafio de transformação da empresa, pois estarão todos movendo juntos. Nas palavras de Parente: “Cuidar da cultura da empresa é um processo e não um projeto, pois é algo que deve ser permanente”.

Portanto, fica a mensagem aos líderes que é justamente a prática cotidiana dos valores de suas organizações, que serve como fundamento para a liderança de suas equipes. Caso isso não seja feito, não se surpreenda com “os efeitos contrários” sob seus liderados. Walk the talk.

João Marcelo Furlan é diretor de Expansão de Desenvolvimento Regional da ABRH-SP

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