Chacrinha imortalizou a frase “quem não se comunica se trumbica”. No dicionário, “trumbicar” significa fracassar. No cenário corporativo atual, de alta complexidade, essa máxima nunca foi tão verdadeira: a negligência com o fator humano gera ambientes onde o medo impera e os resultados sofrem.
Para evitar esse cenário, é necessário ressignificar a visão sobre as pessoas. Cada colaborador é um “mar de significados” e torna-se imensamente interessante quando se adota a postura de Dale Carnegie: interessar-se genuinamente pelo outro. Contudo, promover ambientes que sustentem esse interesse e o desempenho é desafiador. É aqui que dois pilares estratégicos se tornam decisivos: a Segurança Psicológica e a Comunicação Consciente.
O Impacto da Neurociência e da Segurança Psicológica
Muitas vezes vistos apenas como tendências, conceitos humanizados são imperativos de para os negócios. A segurança psicológica, é definida por Amy Edmondson (Harvard), como “a crença de que o time é um ambiente seguro para a tomada de riscos interpessoais.”
A ciência explica isso biologicamente. Estudos de McEwen mostram que, diante do medo de errar ou ser julgado, o cérebro ativa o “modo de sobrevivência”, bloqueando o aprendizado e a criatividade. Em contraste, ambientes seguros reduzem o cortisol e ativam o córtex pré-frontal, área associada à colaboração.
O Projeto Aristóteles, do Google, comprovou essa teoria na prática: a segurança psicológica é o fator número um em equipes de alto desempenho. Nelas, os colaboradores sentem-se à vontade para expressar ideias divergentes, pedir ajuda e admitir erros sem receio de punição.
A Prática da Comunicação na Governança Corporativa
Se a segurança psicológica é o solo fértil, a comunicação consciente é o que o sustenta. Ela envolve intenção, clareza e responsabilidade: analisar a situação sem julgar, escutar com empatia e responder visando o benefício de todos.
Essa abordagem baseia-se na psicologia humanista de Carl Rogers (escuta ativa) e na Comunicação Não Violenta de Marshall Rosenberg (redução de conflitos). Para o RH, traduz-se em quatro pilares práticos: autopercepção (reconhecer gatilhos antes de reagir), clareza (mensagem sem ruídos), presença (atenção plena) e responsabilidade emocional (comunicar limites sem agressividade).
Historicamente, desde meados de 1985, a administração de RH busca o bem-estar como forma de engajamento. Hoje, sob a ótica da Governança Corporativa, a valorização da dignidade humana e o convívio ético tornaram-se mandatórios para a sustentabilidade do negócio.
Guia Prático para Líderes de Recursos Humanos
A gestão de pessoas deixa de ser apenas administrativa para ser profundamente relacional. O líder humanizado entende que pessoas não entregam resultados sob medo. Para operacionalizar essa cultura, recomenda-se:
- Capacitação e Letramento: treinar a liderança em habilidades socioemocionais e vulnerabilidade.
- Ressignificação do Erro: instituir rituais onde falhas sejam analisadas como aprendizado, eliminando a cultura da punição.
- Canais Seguros: criar ferramentas de diálogo anônimo e políticas de portas abertas para reduzir barreiras hierárquicas.
- Rituais de Conexão: promover check-ins emocionais e rodas de conversa regulares, substituindo o silêncio pelo diálogo.
- Monitoramento Contínuo: acompanhar indicadores de clima e engajamento preventivamente, agindo ao menor sinal de ruptura na confiança.
Benefícios da Comunicação Consciente e Segurança Psicológica
A soma da segurança psicológica com a comunicação consciente resulta em benefícios significativos para o ambiente de trabalho, observando-se:
- Menor rotatividade
- Maior inovação
- Decisões mais assertivas
Criar ambientes seguros é, portanto, uma escolha estratégica. O objetivo final é eliminar o termo “trumbicar” do vocabulário corporativo, construindo um futuro onde a performance seja genuinamente impulsionada pela humanidade.
Referências Bibliográficas
- CARNEGIE, Dale. Como fazer amigos e influenciar pessoas. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
- EDMONDSON, Amy C. Psychological Safety and Learning Behavior in Work Teams. Administrative Science Quarterly, v. 44, n. 2, p. 350–383, 1999.
- GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
- MCEWEN, Bruce S. The Brain on Stress: Toward an Integrative Approach to Brain, Body, and Behavior. Perspectives on Psychological Science, v. 7, n. 1, p. 22–23, 2012.
- ROSENBERG, Marshall B. Comunicação Não-Violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.
- BARBOSA, Florinda; RITO, Lucia. Quem não se comunica se trumbica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2004. (Referência à citação de Chacrinha)
Revisão ME:
- de negócio por do negócio
- depois dos dois pontos (:) colocar a primeira letra da palavra em minúscula
