A evolução acelerada da inteligência artificial tem levado as empresas a uma discussão que extrapola produtividade, automação e ganho de eficiência. À medida que as ferramentas se tornam capazes de executar tarefas mais complexas e atuar com maior autonomia, cresce também a necessidade de estabelecer regras claras para seu uso dentro das organizações.
O tema ganha ainda mais relevância diante do debate promovido pelas próprias big techs sobre segurança, controle e limites para sistemas cada vez mais avançados. No ambiente corporativo, a questão se traduz em necessidade de avaliar continuamente os processos para que sejam incorporados à rotina das empresas.
De acordo com Fred Lacerda, diretor de Tech da ABRH-SP, a velocidade da adoção exige que as organizações avancem também na construção de protocolos internos. “Não basta disponibilizar uma ferramenta de inteligência artificial e esperar que cada profissional estabeleça sozinho os limites de utilização. As empresas precisam ganhar maturidade nesse processo, com orientações claras sobre o que pode ser utilizado, quais informações devem ser compartilhadas, quais atividades exigem validação humana e quem responde pelas decisões apoiadas pela tecnologia. Quanto mais a IA entra na rotina de trabalho, mais importante se torna criar uma cultura de uso seguro e responsável”, afirma.
Essa discussão também não deve ficar restrita às áreas de tecnologia. RH, lideranças, segurança da informação, jurídico e diferentes áreas do negócio precisam participar da construção dessas diretrizes, principalmente porque a inteligência artificial começa a interferir diretamente na forma como as pessoas executam tarefas, acessam informações e tomam decisões.
“Existe também um componente importante de educação. Protocolos são fundamentais, mas precisam ser compreendidos pelas pessoas. A organização deve preparar seus profissionais para reconhecer riscos, questionar respostas produzidas pela IA e entender que determinadas decisões continuam exigindo julgamento e responsabilidade humana. Segurança passa também pela formação das equipes”, acrescenta Lacerda.
Dados do Top Employers Institute ajudam a dimensionar esse movimento. Entre as organizações certificadas analisadas globalmente, a proporção de empresas com estruturas formais de IA ética passou de 42% em 2025 para 62% em 2026. No mesmo período, a adoção de práticas responsáveis de implementação da tecnologia avançou de 48% para 68%.
Um recorte da HR Best Practices Survey 2026 mostra que 32% das empresas certificadas Top Employers analisadas no Brasil estão em fase piloto de práticas de inteligência artificial responsável, diante de 23% globalmente. Além disso, 39% das organizações brasileiras destacam o potencial da IA para ampliar a capacidade da força de trabalho, ante 27% no cenário global.
Para Raphael Henrique, gerente regional para a América Latina do Top Employers Institute, a experimentação de novas tecnologias precisa caminhar junto com uma definição mais precisa das responsabilidades. “O Brasil mostra uma abertura importante para experimentar a inteligência artificial e enxergá-la como instrumento de produtividade. O próximo passo é garantir que esse avanço seja acompanhado por critérios claros sobre onde a tecnologia pode atuar, onde a decisão humana precisa prevalecer e quem responde pelos resultados. Quanto mais capacidade damos à IA, mais importante se torna definir a responsabilidade das pessoas que estão por trás dela”, afirma.
O levantamento mostra ainda que entre as organizações com um framework ético formal, 51% avaliam os impactos da colaboração entre pessoas e IA, contra 23% entre aquelas sem essa estrutura. O envolvimento dos funcionários nas discussões sobre ética da IA aplicada ao RH chega a 46% nas empresas que possuem esse tipo de framework, diante de 25% entre as que não contam com essa estrutura.
O avanço tecnológico também pressiona o planejamento das competências necessárias para os próximos anos. Entre as organizações certificadas analisadas pelo Top Employers Institute em 2026, 61% possuem processo formal de planejamento estratégico da força de trabalho para identificar necessidades futuras de pessoas e competências, enquanto apenas 41% trabalham com múltiplos cenários futuros.
Na visão de Fred Lacerda, esse cenário reforça que a segurança no uso da IA deve ser tratada como um processo contínuo. “A tecnologia continuará evoluindo e novos usos vão surgir. Por isso, não estamos falando de criar uma regra hoje e considerar o assunto resolvido. As empresas precisam estabelecer uma governança capaz de acompanhar essa evolução, revisar protocolos, capacitar as pessoas e manter clareza sobre os limites. O desafio é permitir inovação sem transformar velocidade em vulnerabilidade.”
Nesse novo ambiente, a discussão deixa de ser apenas sobre adotar ou não inteligência artificial. Para empresas e profissionais, o desafio passa a ser criar condições para que a tecnologia seja incorporada ao trabalho com produtividade e inovação, mas também com segurança, responsabilidade e supervisão humana.
Fonte: Assessoria de Comunicação da ABRH-SP (05, outubro de 2026)