Nem toda conversa é difícil: por que as organizações precisam recuperar a cultura do  diálogo? 

Vemos um fenômeno se consolidando nas organizações: toda conversa que envolve  desconforto, divergência ou emoção é classificada como uma “conversa difícil”. Dar  feedback, alinhar expectativas, corrigir um comportamento, discordar de uma decisão,  apontar um erro, todos migraram para essa categoria. 

Se por um lado nunca tivemos tantos recursos tecnológicos para gerar uma comunicação  prática, rápida e reduzir distâncias, por outro, nunca foi tão comum evitar ou adiar  diálogos necessários. Assim como os músculos, aquilo que não é usado atrofia. Aos  poucos, estamos reduzindo nosso repertório comunicativo e enfraquecendo habilidades  essenciais que envolvem o falar e o escutar.  

Vivemos um paradoxo.  

A comunicação existe para nos aproximar, calibrar, expor divergências; portanto, é  quando o diálogo surge que podemos resolver conflitos. Mas, por ser uma situação vista  como arriscada, sensível e delicada, ou seja, difícil, a conversa que resolveria, some! E  quando o diálogo desaparece, qualquer conversa será, de fato, difícil. 

Vemos que talvez esteja exatamente aí a solução: a forma como as conversas são  encaradas.  

Será que essas conversas são realmente difíceis?  

Ou estamos, na verdade, perdendo a capacidade de dialogar? 

Grande parte dessas conversas evitadas faz parte da rotina de qualquer ambiente de  trabalho saudável. São interações inerentes às relações profissionais e fundamentais  para a construção de equipes colaborativas e orientadas para resultados. O desafio,  portanto, talvez não esteja nas conversas em si, mas na forma como aprendemos ou  deixamos de aprender a nos comunicar.  

Muitos novos colaboradores estão chegando ao mercado de trabalho sem desenvolver  habilidades básicas para expressar discordâncias com respeito, oferecer ou receber  feedback, lidar com emoções, fazer perguntas difíceis, escutar com presença e  interesse. Como consequência, qualquer interação acaba gerando desconforto, sendo  percebida como uma ameaça; e a dificuldade só aumenta. 

Somado a isso, esse cenário é reforçado pela cultura de muitas organizações, nas quais  as conversas acontecem apenas quando existe um problema. A conversa com o líder  acontece após um erro; o feedback aparece anualmente na avaliação de desempenho; e  os conflitos são discutidos apenas quando já provocaram desgaste interpessoais. Com o  tempo, qualquer convite para uma conversa passa a despertar medo e mecanismos de  defesa. Não porque conversar seja, necessariamente, difícil, mas porque o diálogo  deixou de ser uma prática cotidiana. 

Isso não significa ignorar que existem conversas verdadeiramente sensíveis. Temas como  desligamentos, denúncias de assédio ou discriminação, adoecimento, acidentes de 

trabalho, luto, mudanças organizacionais profundas, falta de éticas e questões da  diversidade e inclusão, exigem preparo e responsabilidade com comunicação  consciente, inteligência emocional e relacional. 

Nessas situações, boa intenção não basta. É necessário líderes capacitados para  conduzir diálogos complexos com clareza e sensibilidade, apoiados por processos  consistentes e por uma cultura organizacional comprometida com a dignidade das  pessoas. 

Entretanto, transformar toda interação desconfortável em uma “conversa difícil” acaba  produzindo um efeito indesejado: normaliza-se a evitação do diálogo. E organizações que  adiam conversas tendem a acumular conflitos, ampliar ruídos de comunicação e  fragilizar as relações de confiança. 

Construir uma Cultura de Comunicação exige atuação em três dimensões  complementares: 

Fortalecer os colaboradores. Nenhuma técnica de comunicação será suficiente  sem autoconhecimento e competências socioemocionais. Inteligência  emocional, autorregulação, escuta ativa, empatia, assertividade, flexibilidade e  abertura para dar e receber feedback são habilidades que permitem separar o  problema da pessoa, acolher perspectivas diferentes e transformar divergências  em oportunidades de aprendizado; 

Desenvolver a liderança. Durante muito tempo, formamos líderes para tomar  decisões. Mas se liderar é comunicar constante e diariamente, precisamos  prepará-los para saberem construir boas conversas quando: orienta, corrige, mas  também reconhece; quando explica, pergunta, mas também escuta; ao  contemplar suas necessidades e abrir acolhimento para as do time. Afinal, eles  não esperam líderes perfeitos; mas que invistam tempo e disposição nessa  relação. 

Construir ambiente organizacional orientado ao diálogo – Mesmo profissionais  preparados e líderes conscientes encontrarão dificuldades para conduzir  conversas, sendo elas confortáveis ou não, se estiverem inseridos em uma  cultura marcada pelo medo. Cabe às organizações deixar claro que valoriza  ambientes de segurança psicológica: disseminando a comunicação aberta e  verdadeiramente assertiva em seus manifestos; e que as soft skills relacionadas  ao fortalecimento das relações humanas são valorizadas dos cargos de liderança  aos colaboradores. Podemos resumir propondo normalizar o diálogo como parte  da cultura. 

O maior desafio não está em aprender a conduzir conversas difíceis, mas recuperar o  hábito das conversas necessárias. Afinal, empresas são feitas de pessoas, e essas se  fortalecem por meio do diálogo. 

Uma organização madura sabe transformar diálogos em rotinas do cotidiano. Quando  colaboradores desenvolvem competências socioemocionais, líderes assumem seu papel  como comunicadores e as organizações cultivam ambientes dirigidos ao diálogo, muitas  das chamadas “conversas difíceis” deixam de existir.

Nossa proposta: que todos olhem a comunicação humana não como técnica para  enfrentar conversas desconfortáveis, mas como a competência mais importante nas  organizações para construir pontes.