Autoria: Ana Lucia M. P. Faggioni, Joyce Ribeiro, Michelle Carvalho (integrantes do GE Saúde e Bem-Estar Integral da ABRH-SP).
Em 2025, o Brasil ultrapassou 546 mil afastamentos por transtornos mentais — recorde pela segunda vez em dez anos, com alta de 15% sobre os 472 mil de 2024, segundo o INSS. Ansiedade e depressão somaram quase 300 mil benefícios. A crise não é individual, é organizacional: quando o ambiente adoece, o resultado adoece junto.
Nesse cenário, a atualização da NR-01 deixa de ser tema jurídico e vira agenda estratégica. A Portaria MTE nº 1.419/2024 incluiu os fatores de risco psicossocial — sobrecarga, assédio, jornadas extensas, falta de autonomia e de suporte da liderança — no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), com fiscalização desde 26 de maio de 2026. Em junho, o STF suspendeu por 90 dias apenas as sanções sobre riscos psicossociais (ADPF 1.316) e abriu conciliação — mas a norma segue vigente e o dever de gerenciar os riscos permanece. O mercado, porém, não está pronto: pesquisa da Heach Human Resources (jan/2026, 1.730 participantes) revela que 68% não compreendem o que mudou na norma e 62% não possuem indicadores formais de riscos psicossociais — lacuna que vira diferenciação competitiva.
Reduzir o tema à conformidade seria perder o essencial: cuidar de pessoas é decisão de negócio. Segundo a Gallup, equipes altamente engajadas têm cerca de 23% mais lucratividade e até 78% menos absenteísmo, além de menor rotatividade; colaboradores felizes são 31% mais produtivos e até 300% mais inovadores (Harvard Business Review). Estudo da OMS no The Lancet Psychiatry estima que cada US$ 1 investido no tratamento de depressão e ansiedade retorna cerca de US$ 4 em saúde e produtividade. O Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026 (Wellhub) confirma: 63% dos profissionais com acesso a iniciativas de bem-estar avaliam sua saúde mental como boa ou excelente, contra 43% sem esse suporte.
O elo entre bem-estar e resultado tem nome: segurança psicológica. O conceito de Amy Edmondson (Harvard) define ambientes onde as pessoas podem falar, errar e discordar sem medo, que o Projeto Aristóteles, do Google, apontou como principal diferencial das equipes de alta performance. A psicologia positiva oferece métodos sobre a ciência da felicidade. O modelo PERMA-V (Seligman), transforma felicidade em dimensões mensuráveis. A Heineken Brasil, em sua Jornada da Felicidade, formou mais de 400 líderes e elevou a felicidade a pilar estratégico, com nota média 8,0 em pesquisa interna e a meta de promover segurança psicológica, no tripé pessoas, lucratividade e reputação.
Essa convergência foi tema no Grupo de Estudos Saúde e Bem-Estar Integral da ABRH-SP (jun/2026): ROI, indicadores de saúde mental e bem-estar precisam ser medidos. Sem indicadores de clima, absenteísmo, rotatividade, recomendação (eNPS) e afastamentos por tipo de adoecimento, o cuidado vira discurso. O modelo SPIRE, de Tal Ben-Shahar (Harvard), reforça que performance sustentável exige equilíbrio entre esforço e recuperação. O reconhecimento externo completa o ciclo: projetos de alto impacto em pessoas viram desempenho e reputação. O Prêmio Ser Humano da ABRH-Brasil distingue práticas de gestão com resultados comprovados; as vencedoras colhem credibilidade e marca empregadora fortalecida.
Para o RH, o caminho é traduzir cuidado em gestão: mapear riscos psicossociais, sensibilizar líderes — a maior variável do ambiente psicológico —, definir metas e indicadores e integrar a saúde mental ao planejamento estratégico. Pesquisas como a GPTW e Departamentos de Felicidade Corporativa não cumprem a norma por si, mas podem ser fios que conectam o gerenciamento de riscos ao plano de ação — e as empresas que os tecem vão além da norma: constroem culturas onde as pessoas querem permanecer e contribuir com o sucesso organizacional.
Conclusão
A saúde mental no trabalho é o encontro entre ética e eficiência. Segurança psicológica garante que conversas fluam, sugestões sejam ouvidas e erros integrem o processo. Liderança tem papel central: escuta ativa, comunicação clara e respeito mútuo. Autocuidado e autoconhecimento devem ser incentivados. Analisar dados é essencial para medir o ROI da saúde. Alinhar objetivos da empresa e das pessoas torna o sucesso possível a ambos. Equipes mentalmente saudáveis e diversas são mais inovadoras, criativas e produtivas. Conectar segurança psicológica a indicadores de desempenho é o desafio que pode impulsionar as empresas brasileiras num cenário onde a lucratividade já sofre com o adoecimento. Investir em pessoas é, comprovadamente, investir em resultados com coerência estratégica.
Sobre os autores
Michelle Carvalho é Avaliadora do Prêmio Ser Humano da ABRH-Brasil. CEO da Lideratti e Diretora do IPTG. Psicóloga, com certificação em Felicidade Corporativa (Vinning) e mais de 20 anos dedicados à Psicologia, Gestão e Trabalho. Estruturação de subsistemas de RH alinhados ao Planejamento Estratégico, indicadores de desempenho,TD&E e Humanização. Professora da FGV nas disciplinas Gestão de Pessoas e Empreendedorismo e Inovação, atuando na sensibilização de líderes e equipes para o alinhamento entre estratégia, pessoas e resultados — com experiência em ambientes certificados GPTW e em organizações que fazem do desenvolvimento humano e da inovação sua principal estratégia de sucesso. Saiba mais em michellecarvalhooficial.com.br.
Ana Lucia M. P. Faggioni é psicóloga pós-graduada em Gerenciamento Estratégico de RH, com ampla experiência na área e trajetória marcada pela construção de ambientes organizacionais saudáveis, implementação de políticas estratégicas de gestão de pessoas e liderança humanizada, sempre alinhando cultura organizacional aos objetivos corporativos. Sua vivência contempla todas as vertentes da gestão de pessoas, incluindo saúde e bem-estar, benefícios, treinamento e desenvolvimento, avaliação de desempenho, programas de qualidade de vida, recrutamento e seleção e administração de pessoal.
Joyce Ribeiro é fundadora da Humanize Consultoria Empresarial e LinkedIn Top Voice. Psicóloga do Trabalho (CRP 05/84714) e Administradora de Empresas, com MBA em Gerenciamento de Riscos, MBA em Gestão Comercial, certificação em Diversidade e Inclusão na Prática das Organizações (PUC-RJ) e Business Certificate na Austrália. Gestora comportamental para empresas, soma mais de 20 anos de experiência corporativa, com destaque para posições de liderança, mais de R$ 400 milhões sob gestão e treinamento de grandes equipes. Tem vivência internacional multicultural na Austrália e nos EUA, atuação no Projeto Consciências — Lutando contra o Preconceito — e é coautora do livro Ensaios Arriscados em Psicologia Social, no capítulo “Burnout: Gestão de Pessoas e Afetos”.
Referências
• Ministério do Trabalho e Emprego. Portaria MTE nº 1.419/2024 — inclusão dos fatores de risco psicossocial no PGR (item 1.5.4.4, alínea “e”, da NR-01); fiscalização a partir de 26/05/2026. Disponível em: gov.br/trabalho-e-emprego. Acesso em: jul. 2026.
• INSS / Ministério da Previdência Social. Benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais, 2025 (546,2 mil concessões; +15% vs. 2024; recorde pela 2ª vez em dez anos). Reportagem G1, 26/01/2026. Disponível em: g1.globo.com. Acesso em: jul. 2026.
• STF. ADPF 1.316 — decisão liminar (jun/2026): suspensão, por 90 dias, das sanções do capítulo 1.5 da NR-1 relativas aos riscos psicossociais e abertura de conciliação; mantidas a vigência da norma e a obrigação de gerenciamento. Disponível em: noticias.stf.jus.br. Acesso em: jul. 2026.
• Heach Human Resources. Pesquisa nacional sobre adequação à NR-01 (jan/2026, 1.730 participantes): 68% não compreendem as mudanças; 62% sem indicadores formais de riscos psicossociais. Disponível em: grupogestaorh.com.br. Acesso em: jul. 2026.
• Wellhub. Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026 (edição PMEs) — saúde mental boa/excelente: 63% com apoio de bem-estar vs. 43% sem. Disponível em: wellhub.com/pt-br. Acesso em: jul. 2026.
• ABRH-Brasil. Prêmio Ser Humano (desde 1993) — reconhecimento de práticas de gestão de pessoas com resultados comprovados; case M. Dias Branco, 1º lugar em Excelência Organizacional, ABRH-CE 2026 (“Gamificação da Estratégia”). Disponível em: abrhbrasil.org.br/psh e mdiasbranco.com.br. Acesso em: jul. 2026.
• Gallup. Q12® Meta-Analysis / State of the Global Workplace — engajamento: +23% lucratividade; −78% absenteísmo; menor rotatividade.
• Harvard Business Review. Estudos referenciados sobre felicidade no trabalho: +31% produtividade, +37% vendas, até +300% inovação.
• Chisholm, D. et al. (2016). “Scaling-up treatment of depression and anxiety: a global return on investment analysis”. The Lancet Psychiatry (estudo liderado pela OMS).
• Edmondson, A. (1999; 2019). Psychological safety / The Fearless Organization. Google — Projeto Aristóteles.
• Seligman, M. Flourish (2011) — modelo PERMA, ampliado como PERMA-V (vitalidade).
• KITAHARA, V.; LACAZ, T.; GIAMELLARO, M. Felicidade Corporativa: como conciliar bem-estar e lucro. Companhia das Letras, 2025. Certificação em Felicidade Corporativa (Vinning) — case Jornada da Felicidade, Heineken Brasil — dados institucionais do programa (jan/2026).
• Ben-Shahar, T. Modelo SPIRE — Happiness Studies Academy.
• RIBEIRO, Joyce. Apresentação “Saúde e Bem-estar: ROI e Indicadores de Saúde Mental”. Grupo de Estudos Saúde e Bem-Estar Integral, ABRH-SP, 02/06/2026.